Mesmo antes de serem países tais como conhecemos hoje, os Estados Nacionais sempre mantiveram relações entre si. Conforme essas se complexificaram, se fortaleceu também o esforço para compreender os interesses que movem os países além de suas fronteiras. Nesse sentido, jornalistas que cobrem política internacional, elaboram suas análises ou reportagens. Isso não só é de grande importância para que o público saiba o que está acontecendo no mundo, como também ajuda a identificar as manipulações de narrativas, que se tornaram ainda mais disseminadas na “era das Fake News”. A desinformação está, muitas vezes, nas postagens em redes sociais e em discursos de governantes, nas mais variadas situações, meios e países.

Sejam informações puramente falsas, fora de contexto, incorretas, rumores ou boatos, com o objetivo de desinformar ou resultado de erro involuntário, esses fenômenos, que coexistem, acabam por confundir a audiência e a impedem de saber o que realmente está acontecendo. 

Para responder, especificamente, a esse fenômeno, um novo modelo de jornalismo está ganhando espaço. É o factchecking. Esse, busca detectar erros, imprecisões ou mentiras ao investigar informações e dados que aparecem na comunicação de diferentes pessoas e meios. 

A jornalista brasileira Mariana Castro, que mora nos Estados Unidos, atua como fact-checking reporter (repórter de checagem de fatos) no Polygraph. info, um departamento da empresa Voice of America (organização que é financiada pelo governo dos EUA, porém, atua de maneira independente). Seu trabalho consiste em monitorar o que estão dizendo os líderes políticos da América Latina (notadamente o Brasil) e escrever fact-checking articles colocando as declarações em contexto e explicando porque são falsas ou imprecisas. 

“Meu time, e eu especificamente, fizemos uma parceria com o Departamento de América Latina da minha empresa e eles criaram uma página dedicada a essa checagem de fatos [na qual] eles traduzem artigos que escrevo. Então, o enfoque total é América Latina ou questões relacionadas a imigração que interessam a população dela, nos Estados Unidos”, explica ela sobre sua atuação.

Além de tentar entender o que o público americano se interessa e precisa saber sobre essa região e, mais especificamente, sobre o Brasil, ela observa como desafio para a cobertura da política internacional, a grande desconfiança em relação aos jornalistas e ao modo como esses relatam os acontecimentos. Para ela, há uma resistência muito grande do público em acreditar no que é noticiado, devido à polarização e à proliferação de notícias falsas.

“Essa separação que temos dos extremos, que é muito difícil de você conseguir chegar num consenso, de você tentar mudar, não é nem mudar, mas, por exemplo, uma pessoa estar aberta para ouvir uma coisa diferente do que ela quer, dificulta muito”, avalia.

Nesse sentido, ela acredita que o que pode ajudar a romper essa barreira, é uma maior transparência com o público, ao explicar como e por qual motivo a reportagem chegou ao resultado apresentado e as fontes usadas para tal conclusão. Ela julga, no entanto, que apenas isso não basta para criar essa ponte, pois, essa relação de confiança passa por muitas outras questões. Um exemplo é a necessidade de maior representatividade de grupos da sociedade nas empresas de mídia. Outro, é a própria preparação dos repórteres, no sentido de estes conhecerem em profundidade a realidade dos lugares dos quais ou sobre os quais reportam. O desconhecimento da complexidade e especificidade de cada situação, limita o olhar e, consequentemente, a cobertura. 

“Penso que tem muito esse problema. Nós vemos em muitos aspectos da reportagem. Eu já vivi, por exemplo. Reportei sobre assuntos indígenas no Brasil durante a pandemia e levou um tempo para eu conseguir criar uma relação com líderes indígenas devido à uma certa desconfiança deles. Eu acredito que teve muito isso de você chegar, fazer uma pergunta para a pessoa, a pessoa te responder, você colocar uma fala que ela fez lá…. Não se leva, não se dá ao trabalho de explicar, entender [contextualizar todas as nuances e particularidades da realidade dela] e nunca mais fala com a pessoa na vida. Então tem essa desconfiança que, assim, é meio histórica”. 

Ela também acredita que não é possível para o jornalista, seja no campo da política internacional ou doméstica, não tentar entender os motivos pelos quais as pessoas acreditam no que acreditam ou apoiam o candidato que apoiam. Ela cita como exemplo, a última eleição americana, na qual muitas pessoas, inclusive jornalistas, questionaram porque latinos votaram em Donald Trump. 

“Acho que isso é um exemplo perfeito do que falo que é essa falta de entendimento”, explica ela. 

Ao presumir que porque a pessoa é latina não votaria em Donald Trump devido às suas declarações e atitudes, não há um esforço, segundo ela, de entender, por exemplo, onde mora, qual é a maior fonte de trabalho da cidade, com o que ela trabalha, etc.

Para Mariana, há questões que não são (ou não são apenas) ideologia e apesar de ela estar muito presente no debate, em sua opinião, é trabalho do jornalista ir além e realmente tentar entender as particularidades sobre o assunto que está reportando. Ela destaca, entretanto, que é preciso separar isso da ideia de que dar o outro lado possa significar ouvir narrativas absurdas ou mentirosas sobre o tema.

“Se você vai falar, sei lá, do aquecimento global, não cabe você ficar meio que no muro e dizer: “porque eu falei com um cientista que um país no mundo vai “explodir” em 10 anos” eu preciso falar com uma pessoa que é contra o aquecimento global. Então eu acho que isso também não ajuda”, finaliza ela.

Logo, o cenário da cobertura da política internacional exige bagagem e repertório, além de solidez e consistência no momento de reportar acontecimentos relacionados à realidade global.

Para que o resultado seja satisfatório e, consequentemente, sejam possíveis a reflexão sobre os fatos e a sua clara compreensão pelo público, é dever do jornalista insistir no rigor da apuração e buscar melhorar as técnicas empregadas para tal. 

Não foi e nunca será tarefa fácil, ainda mais em momentos de desinformação e crise de credibilidade, no entanto, esse é um objetivo que deve ser buscado de modo a contar histórias sobre novas perspectivas e de maneira menos simplificada ou limitada.

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